quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Ataraxia ...

«Com o passar das horas, dos dias, das semanas, das estações, desprendes-te de tudo, afastas-te de tudo. Descobres, por vezes, quase com uma espécie de jubilosa embriaguez, que és livre, que nada te importa. Nada te agrada ou desagrada. Nessa vida sem usura e sem outro frêmito a não ser os instantes suspensos que te proporcionam as cartas e certos ruídos, certos espetáculos a que assistes, encontras uma felicidade quase perfeita, fascinante, por vezes repleta de emoções novas. Vives um repouso total. És, a cada instante, poupado, protegido. Vives num bem-aventurado parêntese, num vazio cheio de promessas e de que não esperas nada. És invisível, límpido, transparente. Já não existes. Há apenas a sequência das horas, a sequência dos dias, a passagem das estações, o passar do tempo, e tu sobrevives, sem alegria e sem tristeza, sem futuro e sem passado, assim, simplesmente, evidentemente, como uma gota de água que escorre da torneira de um patamar, como seis peúgas mergulhadas numa bacia de plástico cor-de-rosa, como uma mosca ou como uma ostra, como uma vaca, como um caracol, como uma criança ou como um velho... como um rato.»


(Georges Perec - Um Homem que Dorme)

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