quinta-feira, 23 de abril de 2009

O espinho essencial de ser consciente ...

...


Vim aqui para repousar,
Mas esqueci-me de me deixar lá em casa,
Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente,
A vaga náusea,a doença incerta,de me sentir.




...



( Alváro de Campos )

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Em que hei de pensar?

«Falhei em tudo. Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. A aprendizagem que me deram, desci dela pela janela das traseiras da casa. Fui até ao campo com grandes propósitos. Mas lá encontrei só ervas e árvores, e quando havia gente era igual à outra. Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?»
( Álvaro de Campos - Fragmento de «Tabacaria» )

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Libertação ... Mas a caminho da prisão ...

Zero é apenas um número ...

( eu por eu mesmo )

sábado, 31 de janeiro de 2009

A grande maldição ...

A maior maldiçao da existência : não poder atuar no nosso passado. Deveríamos poder silenciar coisas que foram ditas e verbalizar alguns de nossos silêncios; imobilizar certas ações e dar movimentos a algumas de nossas inércias. Nos arrependemos de tudo e de nada. O tempo é nosso maior castigo. Ele nos açoita a cada segundo.

( eu por eu mesmo )

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Zerite ...

Doença viral originária de um longínquo país chamado Bobolândia. Ataca principalmente o cérebro e o coração, causando lápsos de memória e estados de hiper-esperancismo seguidos de hiper-desgracismo, o que resulta em significativa perda das faculdades cognitivas. Não é fatal por si, mas em estados febris profundos pode induzir pensamentos mórbidos e tendências suicídas. Seus sintomas duram de um a dois anos e uma vez iniciado o processo de cura, o paciente é acometido de intenso sentimento de vergonha por ter se deixado contaminar pela doença, podendo requerer ajuda psiquiátrica. Curiosamente, a doença só é debelada quando o paciente é contaminado por uma das muitas variantes do mesmo vírus ( por exemplo o vírus LCC - ainda pouco estudado). Estudos apontam o ácido ciorânico ( comprovadamente eficaz contra outras doenças como deusite, humanite, esperancite, etc ) como uma importante substância para combate desta doença. Este ácido é muito usado para manter os níveis normais de esperancina e otimismosina no cérebro dos pacientes.


Atenção: O Ministério da Saúde adverte - O abuso do ácido citado acima pode ter consequências irreversíveis para a "normalidade" mental.


( Psicografado por Petronius - amigo de Zorba o grego )



sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A validade do fazer ...

''Neste matadouro, cruzar os braços, ou sacar a espada são igualmente vãos''.

( Emil Cioran )


Num universo sem salvação, onde tudo é fútil e inútil, só a música salva ....

http://br.youtube.com/watch?v=rJDsm1Y4kUk

( No cars go - Arcade Fire )

domingo, 18 de janeiro de 2009

No atoleiro da vida ...

Não há nas farmácias nada específico contra a existência; só pequenos remédios para os fanfarrões. Mas onde está o antídoto do desespero claro, infinitamente articulado, orgulhoso e seguro? Todos os seres são desgraçados, mas quantos o sabem? A consciência da infelicidade é uma doença grave demais para figurar em uma aritmética das agonias ou nos registros do Incurável.

( Emil Cioran )

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O amor nos revela a nossa miséria ...

"Ninguém se mata pelo amor de uma mulher. As pessoas se matam porque um amor, qualquer que seja, nos revela nossa nudez, miséria, inofensividade, nulidade."
( Cesare Pavese )

domingo, 11 de janeiro de 2009

Somos importantes apenas para nós mesmos ... Para os outros e para a natureza pertencemos à categoria do nada ...

A natureza faz troça dos indivíduos. Desde que a grande máquina do universo vá girando, os ínfimos seres que a habitam não lhe interessam para nada!

( Voltaire )

sábado, 10 de janeiro de 2009

Diagnóstico ...

Padeço de mal-estar existencial ...

( eu por eu mesmo )

domingo, 4 de janeiro de 2009

Dorme, que a Vida é Nada!

Dorme, que a Vida é Nada!

Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que tudo é vão!
Se alguém achou a estrada,
Achou-a em confusão,
Com a alma enganada.

Não há lugar nem dia
Para quem quer achar,
Nem paz nem alegria
Para quem, por amar,
Em quem ama confia.

Melhor entre onde os ramos
Tecem docéis sem ser
Ficar como ficamos,
Sem pensar nem querer,
Dando o que nunca damos.

( Fernando Pessoa, em "Cancioneiro" )

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Ano novo : a esperança é o fruto doce da árvore do engano ...

Vivemos graças aos enganos. O que seria de nós se não pudéssemos enganar e sermos enganados? E se não pudéssemos praticar a mais cruel das perversões que é o auto-engano? Sem isto, provavelmente a vida - como a conhecemos - não seria possível. Deus criou a vida simplesmente concedendo à matéria a capacidade do engano. Se conseguíssemos enganar a uma pedra teríamos um ser que vive, sente e sofre - ou seja : que engana e é enganado.
O ano novo é mais um desses enganos. O sol iniciou mais um de seus intermináveis ciclos e achamos que com isso seremos possuidores da felicidade. Nos esquecemos que no ano passado aconteceu tudo da mesma forma - e a felicidade não veio. A esperança é o fruto doce da árvore do engano.
Ano novo : a sensação de que algo mudou, quando na verdade nada mudou ! ...

( eu por eu mesmo num velho ano novo )

domingo, 28 de dezembro de 2008

O que é o amor ? ...

http://www.youtube.com/watch?v=47amS13a9Hw

( Isto me traz à mente um símbolo que exprime uma quantidade que não existe ... mas deixa pra lá ... mesmo se eu explicasse ninguém entenderia ... nem eu ... )

Leif Erikson

She feels that my sentimental side
Should be held with kids gloves
But she doesn't know
That I left my urge in the icebox.

( Interpol )

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Pensar é começar a ser minado ( Albert Camus ) ...

Os nossos enigmas internos, as nossas questões insolúveis, os nossos sentimentos inelutáveis ... só isto bastaria para preencher uma existência ( ou várias ), mas insistimos em desterrá-los para o impensável. Isolamos e encobrimos tudo isso para que não nos pertubem. Mas nada nos define tanto quanto os nossos abismos. Eles são as impressões digitais da alma. Somos humanos na proporção de sua profundidade e na soma de insolubilidade que guardam.
Viver é esquecer que se é humano. Viver é colocar uma etiqueta de preço na alma e colocá-la numa vitrine ... e a custa de enganos, inadvertidamente caminhar rumo à morte ...

( eu por eu mesmo )

A Miséria do Divertimento ...

Se o homem fosse feliz, sê-lo-ia sem apelar ao divertimento e seria tão mais feliz quanto menos divertido fosse, como os Santos e Deus. - Sim!; mas não sendo feliz pode animar-se pelo divertimento? - Não!; porque o divertimento vem de outro lugar; ele vem de fora de nós mesmos e assim é dependente e, portanto, sujeito a ser perturbado por mil acidentes que tornam as aflições inevitáveis. (...) A única coisa que nos consola das nossas misérias é o divertimento, e contudo ele é a maior das nossas misérias. Porque ele nos impede principalmente de pensar em nós, e com isto nos abandona na insensibilidade. Sem ele, estaríamos no tédio, e este tédio levar-nos-ia a procurar um meio mais sólido de sair dele... Mas o divertimento distrai-nos e faz-nos chegar insensivelmente à morte.

( Blaise Pascal, em "Pensamentos" )

domingo, 21 de dezembro de 2008

O pessimista deve inventar a cada dia novas razões de existir: é uma vítima do “sentido” da vida. (Cioran)

Ah!
Se o mundo inteiro
Me pudesse ouvir
Tenho muito prá contar
Dizer que aprendi...

E na vida a gente
Tem que entender
Que um nasce prá sofrer
Enquanto o outro ri..

Mas quem sofre
Sempre tem que procurar
Pelo menos vir achar
Razão para viver...

Ver na vida algum motivo
Prá sonhar
Ter um sonho todo azul
Azul da cor do mar...

Mas quem sofre
Sempre tem que procurar
Pelo menos vir achar
Razão para viver...

Ver na vida algum motivo
Prá sonhar
Ter um sonho todo azul
Azul da cor do mar...

( Azul da Cor do Mar - Tim Maia )

sábado, 20 de dezembro de 2008

Uma outra vida ...

...
— Não, não consigo acreditar. Tenho certeza de que já lhe ocorreu desejar uma outra vida.
Respondi-lhe que naturalmente, mas que isso era tão importante quanto desejar ser rico, nadar muito de pressa ou ter uma boca mais bem feita. Era da mesma ordem. Mas ele me deteve e quis saber como eu imaginava essa outra vida. Então gritei:
— Uma vida na qual me pudesse lembrar desta vida.
...

( Albert Camus - O estrangeiro )

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Graças a que engano dois olhos nos apartam de nossa solidão? ...

Se na hierarquia das mentiras a vida ocupa o primeiro posto, o amor lhe sucede imediatamente, mentira dentro da mentira. Expressão de nossa posição híbrida, se rodeia de um aparato de beatitudes e de tormentos, graças aos quais encontramos em outro ser um substituto de nós mesmos. Graças a que engano dois olhos nos apartam de nossa solidão? Há quebra mais humilhante para o espírito? O amor adormece o conhecimento; o conhecimento desperto mata ao amor. A irrealidade não pode triunfar indefinidamente, nem sequer disfarçada com a aparência da mais exultante mentira. E por outra parte, quem teria uma ilusão tão firme para encontrar em outro o que procurou de modo vão em si mesmo? «Um espasmo das entranhas nos dará o que o universo inteiro não soube oferecer-nos?» E, contudo, esse é o fundamento desta anomalia corrente e sobrenatural: resolver entre dois - ou melhor, suspender - todos os enigmas; a favor de uma impostura, esquecer esta ficção em que flutua a vida; com um duplo arrulho encher a vacuidade geral; e - paródia do êxtase -, afogar-se, finalmente, no suor de um cúmplice qualquer...

( Emil Cioran )

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A árvore da vida ...

«A árvore da vida não conhecerá mais primaveras: é madeira seca; com ela se farão ataúdes para nossos ossos, nossos sonhos e nossas dores.»

( Emil Cioran )

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Ácido Ciorânico ...

Somos todos uns farsantes : sobrevivemos aos nossos problemas.

( Emil Cioran )

A mais vã das procuras ...

Onde encontrar uma pessoa que seja verdadeiramente digna de inveja ? Da qual se pudesse dizer : "Gostaria de ter vivido a tua vida". Converter-me-ia imediatamente ao otimismo sem limites se a encontrasse - mesmo que não pudesse viver a sua vida.
Onde encontrar esse ser, se nem mesmo no espelho o encontrei ?
...
Talvez entre aqueles que nunca existiram ...
( eu por eu mesmo )

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Problemas com números ...

Zero ... Infinito ... Esses números me intrigam ... Talvez por que existam sem existir ... O melhor é esquecer ...

( eu por eu mesmo - pra quem não entendeu, um abraço ...)

sábado, 6 de dezembro de 2008

As vidas que não vivi ...

Onde estarão agora ?

( eu por eu mesmo )

Presciência ...

Nenhum império sobrevive a si mesmo ...

( Eu por eu mesmo )

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O eterno estar no bifurcar dos caminhos!...

Ó felicidade baça!... O eterno estar no bifurcar dos caminhos!... Eu sonho e por detrás da minha atenção sonha comigo alguém... E talvez eu não seja senão um sonho desse Alguém que não existe...

( Fernando Pessoa )

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Ah! ...Onde tudo isso começou ? ...

Buscar os antecedentes de um suspiro pode nos levar ao instante anterior - ou ao sexto dia da Criação.

( Emil Cioran )

sábado, 29 de novembro de 2008

A medida do Sofrimento.

Há seres que se acham condenados a saborear unicamente o veneno das coisas. Seres para os quais toda surpresa é dolorosa e toda experiência uma nova tortura. Se dirá que esse sofrimento tem razões subjetivas e procede de uma constituição particular. Mas existe um critério objetivo para avaliar o sofrimento? Quem poderia certificar que minha vizinha sofre mais que eu mesmo, ou que ninguém tenha sofrido mais que Cristo? O sofrimento não é objetivamente avaliável, pois não se mede por sinais exteriores ou transtornos precisos do organismo, senão pela maneira que tem a consciência de refleti-lo e de senti-lo. Mas, deste ponto de vista, as hierarquizações resultam-se impossíveis. Todo o mundo preservará seu próprio sofrimento, que considera absoluto e ilimitado. Invocando todos os sofrimentos deste mundo, as mais terríveis agonias, os suplícios mais refinados, as mortes mais atrozes, os abandonos mais dolorosos, todos os infestados, os queimados vivos e as vítimas lentas do boato, diminuiria com isso nosso sofrimento? Ninguém poderá consolar-se no momento de sua agonia mediante o simples pensamento de que todos os homens são mortais, da mesma maneira que, enfermos, não poderíamos achar um alívio no sofrimento presente ou passado dos demais. Neste mundo organicamente deficiente e fragmentário, o indivíduo tende a elevar sua próprio existência à categoria do absoluto: todos vivemos como se fôssemos o centro do universo ou da história. Esforçar-se por compreender o sofrimento alheio não diminui em nada o nosso próprio. Neste tema, as comparações carecem do mínimo sentido, dado que o sofrimento é um estado de desolação íntima que nada exterior pode mitigar. Poder sofrer sozinho é uma grande vantagem. Que sucederia se o semblante humano expressasse com fidelidade o sofrimento interior? Se todo o suplício interno se manifestasse na nossa expressão? Poderíamos conversar ainda? Poderíamos trocar palavras sem ocultar nosso semblante com as mãos? A vida seria realmente impossível se a intensidade de nossos sentimentos pudessem ler-se sobre a nossa face.

( Emil Cioran )

Vida : Travessia de lugar algum pra lugar nenhum ...

Travessia

Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar

Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho prá falar
Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver

Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

( Travessia - Milton Nascimento )