segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O drama de viver ...

...
... a morte, angústia de quem vive
... a solidão, fim de quem ama
...

( Vinícius de Moraes )

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

[ Não ] Conheça a ti mesmo ...

Conhecer a nós mesmos é identificar o motivo sórdido de nossos gestos, o inconfessável inscrito em nossa substância, a soma de misérias patentes ou clandestinas das quais depende nossa eficácia. Tudo o que emana das zonas inferiores de nossa natureza está investido de força, tudo o que vem debaixo estimula: produzimos e rendemos mais por inveja e rapacidade do que por nobreza e desinteresse.
Desconfiemos, portanto, dos que aderem a uma filosofia tranqüilizadora, dos que crêem no Bem e o erigem em ídolo. Não teriam chegado a isso se, debruçados honestamente sobre si mesmos, tivessem sondado suas profundezas ou seus miasmas. Mas aqueles poucos que tiveram a indiscrição ou a infelicidade de mergulhar até as profundidades de seu eu, conhecem bem o que é o homem: não poderão mais amá-lo, pois não amam mais a si próprios, embora continuem – e esse é seu castigo – mais apegados a seu eu do que antes ...

( Emil Cioran )

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

3 Pontos ...

Em toda escrita os "três pontos" sempre deveriam estar presente. Até mesmo na fala deveria haver uma forma de usá-los. Aqui, talvez o silêncio seja o seu melhor sinal ...
Sempre há alguma coisa que não pode ser dita; alguma coisa que falta ser dita ... ou alguma coisa que simplesmente não sabemos como dizer ... ... ... ... ... ... ... ... ... ( ad infinitum )
( eu por eu mesmo, cheio de coisas que não sei como dizer ... )

Não reclame antes da hora ...

Achas a tua vida desgraçada ? Espere até apaixonares por uma mulher que não te ame ... Verás então que eras feliz ...

( coisas da vida )

Para a Sra C.

E quando não sobra nada ? Talvez neste caso tenha sobrado tudo. Mas não ficou nem mesmo uma foto. Apenas a lembrança de um ano longíquo; um ponto de ônibus perdido no espaço e no tempo. Diálogos ensaiados que nunca foram ditos ...
( eu por eu mesmo )

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Axioma ...

«A felicidade sempre está à nossa frente, nunca ao nosso lado.»

( eu por eu mesmo )

domingo, 19 de outubro de 2008

Somos todos iguais ?

"Somos todos iguais perantes Deus".
Se Ele é justo como tantos dizem, esta é uma deslavada mentira ... Ou então Ele não é tão justo assim ...

( eu por eu mesmo )

sábado, 18 de outubro de 2008

Perguntas sem resposta ...

Onde encontrar o antídoto para o desespero, a angústia e a solidão que vez em sempre nos assola ?

( Cioran, eu e a vida )

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Não está na nossa mão o não amar, nem também o amar ...

É propriedade do amor o ser violento; e é propriedade da violência o não durar. O amor acaba-se em nós, não por nossa vontade, mas porque tem por natureza o acabar. E ainda que tudo há-de acabar connosco, nem tudo espera por nós. Quando amamos, é por força, porque a formosura que nos inclina, nos vence. E também é por força quando não amamos; porque uma vez rotos os laços, ficamos de tal sorte livres, que ainda que queiramos, não podemos tornar a eles. E assim não está na nossa mão o não amar, nem também o amar. O coração por si mesmo se acende, e entibia. Nós não o podemos inflamar, nem extinguir-lhe o ardor.

( Matias Aires, em 'Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna' )

domingo, 12 de outubro de 2008

Paradoxo do engano ...

«Nenhum ser humano admite ou suporta ser enganado; no entanto nenhum deles sobrevive sem o engano.»

( eu por eu mesmo )

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A História da Humanidade em Apenas Três Palavras ...

Philip lembrou-se da história do Rei do Oriente que, desejando conhecer a história da humanidade, recebeu de um sábio quinhentos volumes; ocupado com negócios de Estado, pediu-lhe que a condensasse. Ao cabo de vinte anos, o sábio voltou e a sua história ocupava agora apenas cinquenta volumes; mas o rei, já velho demais para ler tantos livros volumosos, pediu-lhe que a fosse abreviar mais uma vez. Passaram-se de novo vinte anos, e o sábio, velho e encanecido, trouxe um único volume com os conhecimentos que o rei procurara; este, porém, estava deitado no seu leito de morte, nem tinha mais tempo de ler sequer aquilo. Aí o sábio deu-lhe a história da humanidade numa única linha: 'Nasceram, sofreram, morreram'.

( Somerset Maugham, em 'A Servidão Humana' )

domingo, 5 de outubro de 2008

Da série : Matemática da Vida ( III ) ...

Glória = Ação - Honra

( eu por eu mesmo )

Da série : Matemática da Vida ( II ) ...

Sucesso = Mediocridade + Otimismo

( eu por eu mesmo )

sábado, 4 de outubro de 2008

Receita contra a infelicidade ...

«Uma gota de veneno, pela manhã, para cada uma de suas esperanças.»

Antes que você pergunte : Infelizmente não existe receita para a felicidade.

( eu por eu mesmo )

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Da série : Matemática da Vida ( I ) ...

Vida = Engano + Ilusão.

( eu por eu mesmo )

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Tudo cansa ...

Não ser amado cansa. Ser amado cansa. Amar cansa. Não amar cansa. Agir cansa. Pensar cansa. Esperar cansa. Ir ao encontro cansa. Falar cansa. Silenciar cansa. A solidão cansa. A companhia cansa. Trabalhar cansa. O ócio cansa. A infelicidade cansa. A felicidade cansa. Tentar dizer que se ama cansa. Esconder o amor que se sente cansa. Estar perto cansa. Estar longe cansa. Viver cansa. Tudo cansa. Por isso o grande descanso ao encontro do qual inexoravelmente caminhamos ...

[ eu (muito cansado ) por eu mesmo ( também cansado) ]

sábado, 27 de setembro de 2008

Nunca Nos Separamos do Primeiro Amor ...

Já o disse em Hiroshima Mon Amour: o que conta não é a manifestação do desejo, da tentativa amorosa. O que conta é o inferno da história única. Nada a substitui. Nem uma segunda história. Nem a mentira. Nada. Quanto mais a provocamos, mais ela foge. Amar é amar alguém. Não há um múltiplo da vida que possa ser vivido. Todas as primeiras histórias de amor se quebram e depois é essa história que transportamos para as outras histórias. Quando se viveu um amor com alguém, fica-se marcado para sempre e depois transporta-se essa história de pessoa a pessoa. Nunca nos separamos dele. Não podemos evitar a unicidade, a fidelidade, como se fôssemos, só nós, o nosso próprio cosmo. Amar toda a gente, como proclamam algumas pessoas e os cristãos, é embuste. Essas coisas não passam de mentiras. Só se ama uma pessoa de cada vez. Nunca duas ao mesmo tempo.

( Marguerite Duras )

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Feliz daquele que pode dizer: “Tenho o saber triste.”

O verdadeiro saber reduz-se às vigílias nas trevas: só o conjunto de nossas insônias nos distingue dos animais e de nossos semelhantes. Que idéia rica e estranha foi alguma vez fruto de um adormecido? Seu sono é bom? Seus sonhos tranqüilos? Engrossará a turba anônima.

O dia é hostil aos pensamentos, o sol os obscurece; só florescem em plena noite... Conclusão do saber noturno: quem chega a uma conclusão tranqüilizadora sobre o que quer que seja dá provas de imbecilidade ou de falsa caridade. Quem achou algum dia uma só verdade alegre que fosse válida? Quem salvou a honra do intelecto com propósitos diurnos? Feliz daquele que pode dizer: “Tenho o saber triste.”

(Emil Cioran - Breviário de Decomposição)

I’m not looking for sweet talk ...

I’m looking for time ...
Cause it hurts sometimes ...

( The Killers - Sweet Talk )

Versos Íntimos ...

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


( Augusto dos Anjos )

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A Soma e Substância de Toda a Filosofia ...

Se te casas, arrependes-te; se não te casa, arrependes-te também; cases-te ou não te cases, arrependes-te sempre. Ri-te das loucuras do mundo e irás arrepender-te; chora sobre elas, e arrependes-te também; ri-te das loucuras do mundo ou chora sobre elas, e de ambas as coisas te arrependes; quer te rias das loucuras do mundo, quer chores sobre elas irás sempre arrepender-te. Acredita numa mulher, e irás arrepender-te, não acredites nela e arrependes-te também; acredites ou não numa mulher, arrependes-te de ambas as coisas. Enforca-te, e arrependes-te; não te enforques, e na mesma te arrependes. É esta, meus senhores, a soma e substância de toda a filosofia.

( Soren Kierkegaard )

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Todos os seres são infelizes ... Mas quantos o sabem ?

Não há nas farmácias nada específico contra a existência; só pequenos remédios para os fanfarrões. Mas onde está o antídoto do desespero claro, infinitamente articulado, orgulhoso e seguro? Todos os seres são desgraçados, mas quantos o sabem? A consciência da infelicidade é uma doença grave demais para figurar em uma aritmética das agonias ou nos registros do Incurável.

( Emil Cioran em Breviário de Decomposição )

domingo, 21 de setembro de 2008

Lembrar é sinal que se esqueceu ...

Te esquecer é muito fácil.
Desde o dia que descobri que te amava ( e voce não a mim ) eu já te esqueci mais de mil vezes ...
A vida é um eterno esquecer. Alguns permanentes; outros não ...
( eu por eu mesmo )

O Bosque das Ilusões Perdidas ...

«Pela primeira vez Meaulnes sentiu aquela leve angústia que sempre nos toma no final de um dia demasiado belo.»

( Alain Fournier )

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O Solitário ...

O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O gênio, foi dito e convêm repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.

(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.

( Miguel de Unamuno em 'Solidão' )

domingo, 14 de setembro de 2008

Sentir é estar distraido ...

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela unica grande razão -Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e a chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraido.

( Alberto Caeiro, 7-11-1915 em O Guardador de Rebanhos )

Não existe destino que não se transcenda pelo desprezo ...

O MITO DE SÍSIFO.

Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.

Se acreditarmos em Homero, Sísifo era o mais sábio e mais prudente dos mortais. Segundo uma outra tradição, porém, ele tinha queda para o ofício de salteador. Não vejo aí contradição. Diferem as opiniões sobre os motivos que lhe valeram ser o trabalhador inútil dos infernos. Reprovam-lhe, antes de tudo, certa leviandade para com os deuses. Espalhou os segredos deles. Egina, filha de Asopo, foi raptada por Júpiter. O pai, abalado por esse desaparecimento, se queixou a Sísifo. Este, que tomara conhecimento do rapto, ofereceu a Asopo orientá-lo a respeito, com a condição de que fornecesse água à cidadela de Corinto. Às cóleras celestes ele preferiu a bênção da água. Foi punido por isso nós infernos. Homero nos conta ainda que Sísifo acorrentara a Morte. Plutão não pôde tolerar o espetáculo de seu império deserto e silencioso. Despachou o deus da guerra, que libertou a Morte das mãos de seu vencedor.

Diz-se também que Sísifo, estando prestes a morrer, imprudentemente quis pôr à prova o amor de sua mulher. Ele lhe ordenou jogar o seu corpo insepulto em plena praça pública. Sísifo se recobrou nos infernos. Ali, exasperado com uma obediência tão contrária ao amor humano, obteve de Plutão o consentimento para voltar à terra e castigar a mulher. Mas, quando ele de novo pôde rever a face deste mundo, provar a água e o sol, as pedras aquecidas e o mar, não quis mais retornar à escuridão infernal. Os chamamentos, as iras, as advertências de nada adiantaram. Ainda por muitos anos ele viveu diante da curva do golfo, do mar arrebentando e dos sorrisos da terra. Foi necessária uma sentença dos deuses. Mercúrio veio apanhar o atrevido pelo pescoço e, arrancando-o de suas alegrias, reconduziu-o à força aos infernos, onde seu rochedo estava preparado.

Já deu para compreender que Sísifo é o herói absurdo. Ele o é tanto por suas paixões como por seu tormento. O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada. É o preço a pagar pelas paixões deste mundo. Nada nos foi dito sobre Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste caso, vê-se apenas todo o esforço de um corpo estirado para levantar a pedra enorme, rolá-la e fazê-la subir uma encosta, tarefa cem vezes recomeçada. Vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de uma espádua que recebe a massa recoberta de barro, e de um pé que a escora, a repetição na base do braço, a segurança toda humana de duas mãos cheias de terra. Ao final desse esforço imenso medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, o objetivo é atingido. Sísifo; então, vê a pedra desabar em alguns instantes para esse mundo inferior de onde será preciso reerguê-la até os cimos. E desce de novo para a planície.

É durante esse retorno, essa pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que pena, assim tão perto das pedras, é já ele próprio pedra! Vejo esse homem redescer, com o passo pesado, mas igual, para o tormento cujo fim não conhecerá. Essa hora que é como uma respiração e que ressurge tão certamente quanto sua infelicidade, essa hora é aquela da consciência. A cada um desses momentos, em que ele deixa os cimos e se afunda pouco a pouco no covil dos deuses, ele é superior ao seu destino. É mais forte que seu rochedo.

Se esse mito é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo 0 sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo.

Se a descida, assim, em certos dias se faz para a dor, ela também pode se fazer para a alegria. Esta palavra não está demais. Imagino ainda Sísifo indo outra vez para seu rochedo, e a dor estava no começo. Quando as imagens da terra se mantêm muito intensas na lembrança, quando o apelo da felicidade se faz demasiadamente pesado, acontece que a tristeza se impõe ao coração humano: é a vitória do rochedo, é o próprio rochedo. O enorme desgosto é pesado demais para carregar. São nossas noites de Getsêmani. Mas as verdades esmagadoras perecem ao serem reconhecidas. Assim, Édipo de início obedece ao destino sem o saber. A partir do momento em que ele sabe, sua tragédia principia. Mas no mesmo instante, cego e desesperado, reconhece que o único laço que o prende ao mundo é ó frescor da mão de uma garota. Uma fala descomedida ressoa então: "Apesar de tantas experiências, minha idade avançada e a grandeza da minha alma me fazem achar é que tudo está bem”. O Édipo de Sófocles, como o Kirílov de Dostoiévski, dá assim a fórmula da vitória absurda. A sabedoria antiga torna a se encontrar com o heroísmo moderno.

Não se descobre o absurdo sem ser tentado a escrever algum manual de felicidade. "Mas como, com umas trilhas tão estreitas?" No entanto, só existe um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Ocorre do mesmo modo o sentimento do absurdo nascer da felicidade. "Acho que tudo está bem", diz Édipo, e essa fala é sagrada. Ela ressoa no universo feroz e limitado do homem. Ensina que tudo não é e não foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele havia entrado com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Faz do destino um assunto do homem e que deve ser acertado entre os homens.

Toda a alegria silenciosa de Sísifo está aí. Seu destino lhe pertence. Seu rochedo é sua questão. Da mesma forma o homem absurdo, quando contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente restituído ao seu silêncio, elevam-se as mil pequenas vozes maravilhadas da terra. Apelos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não existe sol sem sombra, e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e seu esforço não acaba mais. Se há um destino pessoal, não há nenhuma destinação superior ou, pelo menos, só existe uma, que ele julga fatal e desprezível. No mais, ele se tem como senhor de seus dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta sobre sua vida, Sísifo, vindo de novo para seu rochedo, contempla essa seqüência de atos sem nexo que se torna seu destino, criado por ele, unificado sob o olhar de sua memória e em breve selado por sua morte. Assim, convencido da origem toda humana de tudo o que é humano, cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim, ele está sempre caminhando. O rochedo continua a rolar.

Deixo Sísifo no sopé da montanha! Sempre se reencontra seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também acha que tudo está bem. Esse universo doravante sem senhor não lhe parece nem estéril nem fútil. Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz.

( Albert Camus em 'O Mito de Sísifo')

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

«Ser» é um aventura pessoal e solitária ...

«Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida - ninguém, exceto tu, só tu.Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!»

( Nietzsche )